quarta-feira, 22 de março de 2017

traços, trecos, troços, trunfos



traços, trecos, troços, trunfos

Que traços, trecos, troços, trunfos levas?
Aonde os leva?
(P) o (R) que carregas tantas malas,
teus miolos ruídos neste tempo esticado?
Miúdos são teus olhos de perspectiva pouca.
Louco temer agora e sempre deflagrado.
Muito bonito tanta poética mascarando sentimentos 
se arrebentando para lá dos dedos se desandando de um carinhoso mancomunar.

Que(m) seduzes senão teu próprio eu acreditando nesses mesmos traços,
trecos, troços, trunfos, tripas e almôndegas?
Almôndegas e mostarda.
Venha cortar meu barato que eu estou te cantando com poros peles, pelos,
arrependimentos e distúrbios positivos.
Uma releitura, um retoque é exatamente o que transforma o texto em literatura.

Porque não teríamos o direito de retocar os momentos
e vida transformar em obra de arte?
O que torna algo em arte é exatamente esta capacidade/possibilidade/permissividade 
de uma pós-leitura, de uma pós-reflexão/análise/modificação?
E a perfeição seja teu conceito de perfeito/não perfeito,
desfeito, anti-feito, neo-feito.

Quem ousaria penetrar meus traços, "trepos", trincos, troncos, trâmites?
Porque tanta vírgula, vaga tormenta, se incrustando
como objetivo no meio do que está cuspindo tanta ordem de (des)ordem?
Que lacunas são estas que se se criando vão nos arremessando contra outros espaços e sempre esta correria em prol de poder engatar a quarta?
E sempre e novamente sempre curvas e mais curvas e sinais vermelhos. Argh!

Que polícia pouca criastes para me censurar?
Quero infringir sinais vermelhos mesmo que Caetano seja cartesiano.
Quero infringir contra-mãos sobretudo as minhas aceitando as dos trecos dos outros
neutros nossos todos.
Não será nesta mesma medida que limitamos os ataques externos a nossos traços,
trecos, tripas, troços, trunfos tão limitados?
E vamos levando fardos cada vez mais "respeitáveis"
O que ergues e negas, 
o que mentes desmente,
diria melhor, decrepita em tantas veias amargas?
Porque são elas tão importantes?
Te bastas?
Bosta, besta, bicha, bunda e outros corolários tipo: Basta!

E pondes, e pondes, e pondo, no arremate,
reencontro o troco,
a única mataria a que se reduz todo esforço.
Forço, flagro, finjo e traço porque nestes dedos, lápis e
lapiseiras não faltaram.
O que fizestes de tanta tinta derramada senão ossos?
Queime-os agora se coragem vos resta,
pois o tardar dos anos vão se tornando poeira
e neste tempo consumes embora creias ainda que algo guardastes.

Desabafe, estou te auscultando.
Não, não precisa falar.
Só quero teu olhar sem palavras
e dicionário não há.
Queria te ver feliz de tudo aquilo que não há em meus trapos,
terços, tripas, tronos, truques.
E se eu fosse tu e se acreditasses nos desenrolares da vida,
algum sorriso ou nó.
Alimente-se do meu pouco pó.
Estou te (me)-nos-amando.
E pronta para sofrer?

No cálculo racional, a porta de saída;
na logística, a escapatória;
na tática, a retirada
e todo este treinamento de abandono de trazos, trecos, tripas e trunfos.
Nervos, para que vos quero?
Porque tanta polícia para vigiar-te?
O que temes em tu mesma que a pulso exterior invade?
O que negas senão teus próprios trunfos,
metade de restos, diabólicos trazos incoéis,
inúteis trecos e uma pá de tronos?
Porque os levas se os nega?
E minha boca úmida do outro lado não foi capaz de gravar tua sentença:
_ "Me liga amanhã?"

Rio de Janeiro
Provavelmente 1990




terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

CORPOS INFORMÁTICOS: "ESQUECI MEU GUARDA-CHUVA" Maria Beatriz de Medeiros / UnB / Corpos Informáticos

25° Encontro Nacional da ANPAP. 
Porto Alegre, RS, 2016. A arte : seus espaços e/em nosso tempo Anais [recurso eletrônico] do 25o Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, setembro de 2016, Porto Alegre, RS ; [Nara Cristina Santos ... [et al.] (orgs.)]. – Santa Maria : ANPAP : UFSM, PPGART : UFRGS, PPGAV, 2016. 1 e-book ISSN 2175-8212


RESUMO 

Corpos Informáticos: "Esqueci meu guarda-chuva" trata de performances de rua realizadas pelo Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos durante os anos 2015 e 2016. A análise é feita tendo como ponto de partida um texto de Jacques Derrida sobre uma anotação de Nietzsche: "Esqueci meu guarda-chuva". Nos indagamos sobre o guarda-chuva entendido como arte, como ser e como grupo. PALAVRAS-CHAVE Corpos Informáticos; performance; guarda-chuva; Jacques Derrida.

http://anpap.org.br/anais/2016/comites/cpa/maria_beatriz_medeiros_final.pdf

http://anpap.org.br/anais/2016/

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Anos 80, mais especificamente, 1984.








 Paris se mexe, New York tem ciúmes.
Edição: Autrement/Le Monde.


 27/09/1984. Galeria Jean et Jacques Donguy. Paris.


 Nossos corpos rasgados pela problemática das sociedades ditas subdesenvolvidas, utilizando a publicidade pela imagem corporal para mostrar nossa felicidade unidirecional. O desvio dos cartazes publicitários será de ruminar seu corpo simbólico e nós nos comeremos carnalmente e sexualmente. "Comportamento exploratório, montanhas desordenadas de cartazes publicitários". A fome volta sempre e nós somos muito numerosos.

 Bia Medeiros e Suzete Venturelli.



Le Monde Aujourd'hui. setembro 1984. 




"Suzete Venturelli e Bia Medeiros expõem a solução delas para o problema da fome: Antropofagia". 



APP na Galeria Roch. 15 de dezembro de 1984.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Performance e composição urbana: outros processos educacionais em práticas artísticas em grupo. Maria Beatriz de Medeiros e Mateus de Carvalho Costa

Performance e composição urbana: outros processos educacionais em práticas artísticas em grupo


Maria Beatriz de Medeiros e Mateus de Carvalho Costa

RESUMO

Este texto trata da produção artística do Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos em suas dinâmicas, como práticas pedagógicas. As produções efetuadas implicam trocas não hierárquicas e necessitam de amálgama social, base de processos educacionais. Estes processos envolvem, ainda, o caráter técnico, voltado para as ferramentas de produção e o caráter poético, voltado para as reflexões filosóficas.

Palavras-chaves: performance, composição urbana, processos educacionais, produção artística, grupo, lance.

LISTA DE FIGURAS

Figura 1. Encerando a Chuva, Corpos Informáticos, Candangolândia - DF, 2011. Disponível em: http://3.bp.blogspot.com/-dWv39edaRjE/Tl1-VQMWPdI/AAAAAAAABTA/5cMGDeMo9aI/s1600/kombis%2Bunb- 35.jpg.  Acesso em: 13/04/2   Pag. 11

Figura 2. Encerando a Chuva, Corpos Informáticos. Candangolândia - DF, 2011. Disponível em:  http://4.bp.blogspot.com/-M-slKLCesQY/Tl17Nqs2v8I/AAAAAAAABRY/RGX-Jm8HS9A/s1600/ kombis%2Bunb-12.jpg.  Acesso em: 13/04/16.  Pag.13

Figura 3.  Composição Urbana Mar(ia-sem-ver)gonha(MSV), Corpos Informáticos. Brasília - UnB, Kombeiro, 2012. Disponível em: http://4.bp.blogspot.com/-QoS9rgv6cI4/ T4cFelPkUuI/AAAAAAAABkU/IecjcIWOHGs/s1600/IMG_2555.JPG. Acesso em: 13/04/2016     Pag. 15

Figura  4.  Kombunda vai à praia, Corpos Informáticos. Salvador - Bahia, 2012. Disponível em: http://3.bp.blogspot.com/-LSU5SekmM78/T4WZr0BElTI/AAAAAAAABXA/LFWCOhp1VOI/s1600/Sequence% 2B01_42%2B%252B.jpg  Acesso em: 13/04/16.                                                 Pag. 17

Figura  5. Carambolama, Carambola, Carambolando, Carambulante, Corpos Informáticos, Brasília, UnB, Kombeiro, 2014. Fonte: https://vimeo.com/83282296 Acesso em: 13/04/2016 Pag. 20
Figura 6.  Composição criada a partir de lixo para a exposição Charivari dos garis. Casa de Cultura da América Latina, UnB - Brasília, Disponível em: 2013.http://1.bp.blogspot.com/jTKEtF VIPno/VdTxTdGZYoI/AAAAAAAAF70/XjkSSgbHCAM/s1600/enceradeiras%2Bna%2Bgrade.JPG  Acesso em 15/05/2016 Pag. 26


Figura 7 e 8. Composição Urbana Kombeiro, Corpos Informáticos, UnB - Brasília, 2012. Disponível em: https://3.bp.blogspot.com/ Acesso em: 15/05/2016. Pag. 32

O presente ensaio analisa processos de algumas produções artísticas do Grupo Corpos Informáticos, no qual participei nos últimos anos, e seus desdobramentos enquanto ensino/aprendizagem multidisciplinares existentes tanto planejamento dos processos como em descobertas do lance, do ato. Pretende-se, aqui, identificar alguns pontos onde o aprendizado se dá de forma  empírica durante os processos e sua característica multidisciplinar. Fluídos do lance, do instante, encontrado na vivência, no compartilhamento com o outro durante processos artísticos. A produção a ser analisada tem como cerne o trabalho efetuado junto ao Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos (GPCI). Estes processos tem a característica de terem sido realizados em grupo e ter um viés performático e a característica de Composição Urbana. Produções efetuadas em grupo implicam, de certa forma, trocas não hierárquicas e necessitam amálgama social e base de processos educacionais. Estes processos envolvem também o caráter técnico, voltado para as ferramentas de produção, e o caráter poético, voltado para as reflexões filosóficas.

PRÁTICAS, EXPERIÊNCIAS OU CICATRIZES

O Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos(GPCI) é formado por estudantes, professores e técnicos em artes visuais e artes cênicas: graduação, mestrandos e doutorandos. Os mais jovens em geral são bolsistas de Iniciação Científica. A investigação do grupo caminha entre a filosofia, a arte e a vida. Um extenso trabalho prático/teórico permeia áreas como performance, fotografia, videoarte e eventos.

Meu ingresso no GPCI deu-se em outubro de 2011 e minha primeira participação foi em “Encerando a Chuva na Candangolândia. Performei sem saber muito bem o que era performance ou seu conceito, trabalhei com o grupo sem compreender bem a ideia de coletivo. Note-se aqui a liberdade dada pelo grupo a novos integrantes em formular seus próprios conceitos, suas próprias interpretações. Onde ambos são agentes do processo:  
“Educador e educandos (liderança e massas), co- intencionados à realidade, se encontram numa tarefa em que ambos são sujeitos no ato, não só de desvelá- la e, assim, criticamente conhecê- la, mas também no de re - criar este conhecimento.” (FREIRE, 1981, p.31)

Esta performance foi realizada pelo GPCI com dez pessoas reunidas, com dezessete enceradeiras vermelhas, um aspirador de pó, uma máquina de escrever. Aqui foi alugado um carro-pipa. A performance foi realizada durante o período da seca e sobre um canteiro com plantas sedentas. Choveu na seca.


Figura 1. Encerando a Chuva, Corpos Informáticos, em Candangolândia- DF, 2011. 

Toda logística exigiu um estudo prévio, multidisciplinar que foi dividido organicamente entre o grupo: reconhecimento sócio/geográfico do locus, orçamento do carro-pipa, duração da chuva, locomoção dos membros dentre outros. Soma-se, divide-se, multiplica-se, se aprende com a troca, com a antecipação coletiva de uma ação: uma pedagogia que se baseia rizomática, que permite relações verticais e horizontais. Sem um delineamento entre as hierarquias internas e externas ao grupo. Percebe-se, aqui, a necessidade de concatenação dos membros do grupo, a capacidade de jogo coletivo, a capacidade de percepção do espaço, do tempo e do publico.

"Quase toda grande obra (fisicamente grande ou grande em complexidade técnica) é trabalho pluridisciplinar, interdisciplinar. Sendo assim, ela só pode ocorrer no seio de um grupo, onde cada individualidade traz sua especificidade, e aceita a promiscuidade. Promíscuo: a favor da mistura". (MEDEIROS, 2005, p.118)

Entrar no GPCI possibilitou-me, um outro, que se percebe “com”, que reflete, que se sente, repassa, troca e apropria-se das realidades dos demais Responsabilizar-se com o próximo. Os lobos, organizados em alcateia, são um exemplo de inteligência, dignidade e respeito para com os seus iguais. Não falam nem escrevem, mas se comunicam de diversas maneiras, são tão eficazes quanto a fala. Eles usam a linguagem corporal e uma enorme variedade de uivos e sons. A vida lupina gira em torno da alcateia. Assim demostra Medeiros ao descrever o processo das relações dentro do GPCI.

Traçado na fuleragem do desvio, como detalhes de um processo artístico feito em alcateia denominada corpos informáticos que ativa, na prova dos nove. o que se sente é o corpo fazendo política, performance, jogando pique-bandeira, inserindo parafernálias. Este processo se inicia em 1992. (MEDEIROS, 2011, p.13)

Na performance pude perceber o quanto precisamos apreender no tempo átimo. Aprender a aprender. Não ei de negar os ganhos com a possibilidade da antecipação, mas um reconhecimento  à (im)possibilidade do instante. Há descobertas que se mostram possíveis apenas no ato. No desdobrar dos corpos presentes em determinado espaço tempo: Problemáticas nativas do instante, do lance, das inter-relações do momento. 

A performance, vista pelo grupo não mais como performance ou arte, mas sim como fuleiragem. A performance descrita no dicionário tende a ser rendimento. A fuleiragem por sua vez não se resume a medir rendimentos, a estabelecer valoração, ela permite fugir às convenções das instituições da arte ou da escola. Assim, nos deparamos com as ideias de Illich, onde “podemos fornecer ao aprendiz novas relações com o mundo, em vez de continuar canalizando todos os programas educacionais através do professor.” (ILLICH,1985, p.84)


Figura 2. Encerando a Chuva, Corpos Informáticos, Candangolândia- DF, 2011. 

A performance não necessita de dinheiro ou de materiais caros, se faz com o que se tem. Isso não reduz sua potência. Ao contrário, sua potência pode estar na simplicidade de questionar, informar, difundir, confundir, refletir, (com)partilhar. Então enceramos a chuva na intenção de sua subjetividade ou de sua propriedade  iterativa.

Encerando a chuva como, ocasião, jogo, brincadeira ou como fuleragem, não se propõe iterativa, pois já é, por natureza, iterativa e, assim, também se faz mixuruca, efêmera. O outro não é inanimado: a autonomia do transeunte/espectador/participante, do outro e seu autogoverno deságua no inesperado. Posto a lógica da iteração, as intenções podem fugir à vontade do performático. A performance se baseia nas relações com o corpo, com a vida, sem cortes. Mesmo a tentativa da antecipação se sujeita ao acaso, ao risco: Coeficiente de arte (DUCHAMP). A performance com descrita aqui é se permitir errante:
"As palavras calam, os tendões escoam para fora dos limites da pele. Nem sempre resultado resulta. No entanto, a vida ocorreu, performance. Relaxo, lapso de silêncio, no mundo desobstruído. Bolhas de prazer e mente esvaziada. Provar o duro, por oposição ao doce da linguagem". (MEDEIROS, 2011, p.15)

A performance, que tem o corpo como agente da ação, trabalha com uma linguagem, quiçá, comum a todos. O ser humano, em sua comunicação primeira, ao longo de sua transformação na terra se valia do corpo e seus artifícios, para se comunicar. Expressão corpórea, sobrevivência. O corpo é um tecnológico composto de expressões, capazes, potentes. 
Quem se não o corpo? Corpo que todos temos. Essa percepção nos foi esquecida: A lucidez de uma consciência do corpo e sua capacidade de modificar o espaço, de construir a própria realidade. Talvez seja, por ele, que cada um chegará, à consciência dos outros, de seus semelhantes de si.

Mar(ia-sem-ver)gonha (M.S.V.)

Outro processo a ser analisado é o da construção de uma Composição Urbana(C.U.), denominada Mar(ia-sem-ver)gonha (M.S.V.). Trata-se de uma pintura de cento e cinquenta metros de comprimento por seis metros de largura sobre o asfalto situado na L4 norte entre o “Beijódromo” da UnB e o IBAMA. Essa Composição Urbana só pode ser vista do alto, isto é, por drones, helicópteros, aviões, ou câmeras acopladas a balões de festa infantil cheios de gás hélio. 


Figura  3.  Mar(ia-sem-ver)gonha(MSV), Corpos Informáticos, Brasília, UnB, Kombeiro, 2012. 

Esse foi um dos desdobramentos deste trabalho. A ideia era filmá-lo, porém, não possuíamos formas de filmagem tecnológicas de alto custo. Então, a forma foi adequar o pretendido ao possível. Inicialmente procurou-se qual o cálculo matemático para saber quantos balões são necessários para levantar uma câmera. Pesquisa técnica de quantos balões usar, como proteger a câmera, a estética do suporte que reutilizava materiais do lixo, que foi construído para acoplar a câmera em formato de Kombi,  pois, como veremos posteriormente, o GPCI possui uma composição urbana com sete kombis além de ter realizado diversos trabalhos com kombis.

Note-se aqui a capacidade criativa instigada pela condição financeira e pela carência de recursos. Uma proposta como esta com sua característica transdisciplinar permite a exploração de várias áreas do conhecimento e se constitui como uma forma lúdica de brincadeira, que diverge dos padrões institucionalizados de ensino.

Pintura coletiva, corpo grupo, 150 metros: potência da alcateia, corpo modificando o espaço ou simplesmente um bando de maria-sem-vergonhas. Reflexão:

"Nós propomos o conceito de “Maria-sem-ver-gonha”, que faz rizoma quando seus caules, pesados de flores, prostram-se sobre a terra, mas também produz cápsulas herbáceas que explodem, espalhando sementes mínimas. Assim, a Maria-sem-vergonha é árvore e rizoma simultaneamente. E por conter “ia-sem-ver”, ela privilegia todos os sentidos, retirando o valor da visão dado pela arte desde há muito. A performance envolve a totalidade dos sentidos: corpo, perfume, tato, toque, som, movimento, o outro etc". (MEDEIROS, 
PERFORMANCE ARTÍSTICA NO VIVO E AO VIVO, 2009)

Em 2012, fomos convidados a participar da exposição ZMário 15 anos de Body Arte e performance (José Mario Peixoto) na galeria ACBEU, Salvador. Lá foram realizadas as seguintes performances:
- Kombunda vai à praia. (Imagem de quatro metros por um metro e meio). Kombunda é uma fotografia que foi tirada de forma espontânea e que tornou-se um símbolo do grupo. São seis bundas na janela de uma Kombi amarela sem rodas. É pura fuleragem: fazer bundalelê é brincadeira de criança, no entanto, é uma forma irônica de questionar,  ridicularizar.


Figura  4 Kombunda vai a praia, Corpos Informáticos, Salvador, Bahia, 2012. 

- Desfile com enceradeiras da Av. sete de setembro até o elevador Lacerda. Com enceradeiras, andamos do ACBEU, no corredor da Vitória, descemos a ladeira do Largo dos Aflitos, até a beira-mar onde, exaustos, pedimos carona a um caminhão vermelho e fomos atendidos gerando novamente unidade coletiva: enceradeiras vermelhas, performers vestidos de vermelho sobre caminhão vermelho. Potência.
Note-se, neste e nos outros trabalhos analisados, a criação de rede com artistas que trabalham com performance, o como estamos repassando com interligação gerada. Teia tramada. Possibilidade que Illich aponta como forma de tornar a sociedade menos dependente de suas instituições de ensino, propondo uma educação em rede.

A mais radical alternativa para escola seria uma rede ou um sistema de serviços que desse a cada homem a mesma oportunidade de partilhar seus interesses com outros motivados pelos mesmos interesses.[...]Qualquer pessoa, em qualquer momento e por um preço mínimo, poderia identificar-se em um computador dando-lhe endereço, número telefone e indicando o livro, artigo, filme ou gravação sobre os quais gostaria de discutir com um parceiro qualquer. Dentro de poucos dias poderia receber pelo correio uma lista de outras pessoas que, recentemente, tomaram a mesma iniciativa. Com esta lista, poderia combinar , por telefone, um encontro com pessoas que, a princípio, se tornariam conhecidas apenas pelo fato de terem procurado um dialogo sobre o mesmo assunto. (ILLICH, 1985, p.163)

Corpos Informáticos trabalha partir de Brasília, no entanto, tem feito muitas ações em outras cidades: Natal, Maceió, Salvador, Rio de Janeiro, Petrópolis (RJ), São Paulo, Campinas (SP), Goiânia entre outras.
Outro trabalho de origem na vivência do GPCI foi o vídeo/performance Carambolama, Carambola, Carambolando, Carambulante, Caralamba. A ideia surgiu durante um processo de construção de uma composição urbana onde plantávamos enceradeiras e plantas(carambola, jaca, milho, feijão e marias-sem-vergonha) no Kombeiro na L4 norte.


Figura  5. Carambolama, Corpos Informáticos, Brasília, UnB, Kombeiro, 2014.

Esta vídeo/performance de sete minutos foi gerado de uma proposta espontânea: dois performers tomam banho na lama que corria depois de uma chuva torrencial. Ele foi filmado com a câmera na mão em uma só tomada pelo bolsista do ensino médio Fabrício Araújo.
A alternativa para nossa dependência das escolas não é o uso dos recursos públicos para algum novo propósito que “faça” as pessoas aprendem; é antes a criação de um novo estilo de relacionamento educacional entre o homem eu seu meio ambiente. Concomitantemente com a promoção deste estilo, devem mudar as atitudes para com o crescimento, os instrumentos da aprendizagem, a qualidade e estrutura da vida cotidiana (ILLICH,1985, p.84)

Esse entendimento direciona os olhares para a performance que passa a ser um conteúdo programático favorável ao ensino da arte na escola, tendo em vista a sua identidade de ser uma atividade processual e, não necessariamente, a elaboração de um produto final.
Nas instituições educacionais convencionais são impostos conteúdos e padrões que se enquadram na ordem estabelecida. Logo, trabalhar com performance é abrir possibilidades de ações críticas, questionadoras que podem dialogar com o padrão de educação existente, dominadora e opressora. Colocar a liberdade de pensar e agir em foco como alternativa para a formação cidadã. Nesse sentido, a performance pode ser enquadrada ao perfil de uma outra escola, diferente, aberta e prazeirosa. 

Em processo de criação o Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos propôs, em 2013, o “Charivari dos garis”, exposição cuja característica também era trazer o lixo de casa e da rua. Participaram Adauto Soares, Bia Medeiros, Camila Soato, Cecília Mori, Diego Azambuja, Fernando Aquino, Júlia Milward, Márcio Mota, Maria Eugênia Matricardi, Mateus de Carvalho Costa, Moisés Crivelaro, Naura Timm, Polyanna Morgana, Renato Rios e Rodrigo Cruz. A exposição aconteceu durante o evento Performance Corpo Política (PCP) na Casa de Cultura da América Latina (CCAL), UnB. 

  
Figura 6.  Composição criada a partir de lixo para a exposição Charivari dos garis. Casa de Cultura da América Latina, UnB, Brasília, 2013.

Este evento, Performance Corpo Política, e outros organizados pelo Corpos Informáticos estão registrados(foto/video/texto) no site: www.performancecorpopolitica.net. O evento Performance Corpo Política pretende estimular, além da prática artística um troca teórica através de palestras e também, o intercâmbio entre as diversas regiões do país, além de propor uma reflexão sobre as interferências do ambiente externo, que mescle corpo, coletivo, cidade e política. Com as ações realizadas pelos colaboradores e artistas, podemos pensar em:

"Um bom sistema educacional deve ter três propósitos: dar a todos que queiram aprender acesso aos recursos disponíveis, em qualquer época de sua vida; capacitar a todos os que queiram partilhar o que sabem a encontrar os que queiram aprender algo deles e, finalmente, dar oportunidade a todos os que queiram tornar público um assunto a que tenham possibilidade de que seu desafio seja conhecido. Tal sistema requer a aplicação de garantias constitucionais à educação". (ILLICH,1985, p.86)

O Kombeiro é uma C.U. com varias kombis personalizadas, com arvores plantadas em suas aberturas, localizada ao lado da M.S.V. na Universidade de Brasília. A ideia do GPCI teve origem em 2010, foram preparadas kombis(lixadas, pintadas e amadas). Ao conhecer as kombis do GPCI vi que as mesmas não são um ato de contra-cultura, se fazem confundir por se decomporem de sua função uterina, de sua função usual de ser veículo, de ter rodas, de sua performance enquanto máquina fluidora do movimento louco-motor. Uma kombi "deveria" estar levando e trazendo coisas, andando sobre asfaltos. Aqui, a kombi é parte da paisagem, é o lúdico no caminho dos que por ali passam. É vestígio dos corpos que a retiraram do privilegio do abandono em que se encontravam, empilhadas num ferro-velho. Recriaram-se, com tinta. Redescobriram-se, na pesquisa, na lixadeira. Como possibilidades outras dentro de uma sociedade programada e normativa.  


 Figura 8. Kombeiro, Fotos: Franciane Ferreira. UnB - Brasília, 2013.

"Não importa o que sabemos mas o que fazemos com o que sabemos" (FREIRE,1981)

Conclusão

Levando em consideração o espaço/tempo no qual estamos inseridos, um sistema capitalista de perfil completamente competitivo e individualista, em uma era tecnológica e digitalizada que em nuvens virtuais se lançam em rede. As relações sociais e o próprio corpo são esquecidos ou deixados em segundo plano. Indo contra esse fluxo o trabalho em grupo fortalece as relações sociais, a reflexão, a redução e a responsabilidade (CAPELAS, 2011).

A máquina social, o rizoma pedem vivência. Há carência. Talvez um sintoma concreto, a violência. O corpo é um caminho, para o entendimento de si, do outro. O corpointeiro, não apenas nossos sentidos privilegiados como a visão. A performance é potência que abre possibilidades para trabalhar com outros sentidos do corpo, se mostra uma prática artística capaz de criar outras relações com o corpo e com a sociedade.

Os sentimentos e o poder de confraternização que habitam os corpos está secando num mar de desigualdades e pensamentos individualistas. Temos vergonha  da nossa meleca ou nosso pum, mas não de nossos passos que vão em direção do individualismo e da ganância. O corre corre por dinheiro, para garantir o pão ou luxo, nos separa. Estamos dominados por um pensamento consumista - fundamentalismo consumo (Milton Santos - Globalização), onde a tentativa de minimizar as dificuldades de se viver, se torna guerra e a busca de poder para benefício próprio.







O aprendizado na brincadeira, no jogo, na fuleragem, em grupo, abre caminho para uma possibilidade de ensino na vivência, onde todos são agentes do conhecimento, onde a hierarquia se dilui em decorrência da comunhão (FREIRE).

Referências
ALBUQUERQUE, Natasha de; MEDEIROS, Maria Beatriz de. Composição urbana: surpreensão e Fuleragem. Rio de Janeiro: SESC, 2013, p. 24 a 35.  
AQUINO, Fernando; AZAMBUJA, Diego; MEDEIROS, Maria Beatriz de.
Corpos informáticos: arte, cidade, composição. Brasília: PPG-Arte/UnB, 2009.
AZAMBUJA, Diego; MARTINS, Fernando Aquino; MEDEIROS, Maria Beatriz de. Corpos Informáticos. Arte, cidade, composição. Brasilia: PPG-Arte-UnB, 2009.
CAPELAS, post: 8rs da sustentabilidade, 2011. disponível em: http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/sustentavel-na-pratica/reduzir-melhor-3rs-285461/).
DELEUZE, Gilles Guattari, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1, 2, 3, 4 e 5. São Paulo: Editora 34, 1995.
DUCHAMP, M. O ato criador. In: BATTCOCK, G. (Org.). A nova arte. São Paulo: Perspectiva, 1986. p. 71-74.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 9. ed. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1981
ILLICH, Ivan, Sociedade sem escolas: trad. de Lúcia Mathilde Endlich Orth. Petrópolis, Vozes, 1985.
MEDEIROS, Maria Beatriz de. Aisthesis. Arte educação e comunidades. Chapecó: Argos, 2007
OITICICA, Hélio. Aspiro ao grande labirinto. HélioOiticica.-Rio de Janeiro: Rocco, 1986.